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Cresci em Japaraíba, uma cidade com pouco mais de três mil habitantes no centro-oeste mineiro. Como quase toda pequena cidade mineira, a vida social tinha como escopo a igreja e seus movimentos. A culpa cristã foi introjetada desde muito cedo. Desse modo, segui experimentando a vida através de práticas religiosas sob o jugo de um deus pai, onisciente e onipresente, representado pela hierarquia da igreja, defendido e proclamado pelos fiéis. A imagem de deus ajudava meus pais e familiares a conseguir a obediência esperada e, na mesma medida, a censurar toda a curiosidade infantil pelo mundo, pelo corpo e pelos desejos.

 

            Cresci longe do contato com a arte. O mais próximo que cheguei foi por meio do artesanato. Aos 8 anos me dedicava diariamente a desenhar, o que logo me levou para as aulas de pintura em tecido e óleo sobre tela. No ensino secundário, através das aulas de literatura, tive um primeiro contato com as vanguardas do início do século XX. A minha primeira separação com o ambiente interiorano foi aos dezessete anos quando me mudei para Belo Horizonte e ingressei na Escola Guignard.

 

O encontro com a arte me possibilitou o primeiro confronto com o que era para mim absoluto, sagrado, e, assim, improfanável. Cheguei à Guignard com uma enorme carga de piedade e ingenuidade. Experimentei um choque cultural imenso. Num primeiro momento senti-me deslumbrado e aos poucos fui rejeitando aquilo que trazia, tomando como meu o universo de possibilidades que a escola me oferecia. A tentativa de abolir de minha estrutura a subserviência eclesial foi frustrada. Permaneci na graduação por dois anos, e, não suportando os conflitos internos, escolhi voltar para o interior e retomar uma caminhada junto à igreja. Decidi ser padre e entrei para um seminário de formação presbiteral.  O contato mais intenso com a igreja e seus bastidores revelaram-me nuances até então ignoradas. Por mais contraditório que pareça, foi dentro da igreja que pude perceber e experimentar que um mundo sem o jugo divino e eclesial é possível. Reacendia, assim, a experiência de liberdade outrora oferecida pela arte.

 

            Após um ano no seminário, decidi-me por sair e retomar os estudos na escola Guignard. Os conflitos que experimentava entre os movimentos da instituição eclesiástica e acadêmico-artística, geraram um caminhar pelo contraditório, proporcionando-me o início de um processo criativo que ainda norteia minhas escolhas plásticas e conceituais. Pela arte pude relativizar tudo que sempre se apresentou como absoluto. Num movimento de profanação pude trazer à vida comum o que havia sido separado pelas dinâmicas de fé e crenças. Reconstruo desde então um novo universo simbólico. A arte possibilitou-me ressignificar o meu modo de ver, pensar e atuar na vida.

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